
Sei que moro em cidade grande, metrópole, poluição, barulho, violência desenfreada, trânsito, mas apesar de décadas vivendo na Terra da Garoa, ser assaltado não faz parte de minhas atividades diárias.
Pela primeira vez fui vítima de tentativa de assalto. Mais uma, das milhares de tentativas que acontecem por aqui diariamente.
Toc toc toc.
O que mais lembro é do barulho do cano da arma batendo no vidro do carro. Toc toc toc.
Deve ter sido uns dois segundos que separaram o toc toc toc no vidro do carro da minha disparada avenida acima. E não tenho como fugir do chavão, nesses dois segundos minha vida passou por mim como um filme.
Toc toc toc e lembrei do sacrifício que é pagar as prestações do carro.
Toc toc toc e pensei na reação do pessoal lá de casa ao receber o telefonema de alguém dizendo que eu tinha sido baleado.
Toc toc toc e deu tempo de pensar nos lugares que não fui, nos amores que não tive, na conta que não paguei, no regime que não fiz e na boca do George Cloney..
Toc toc toc e passei mentalmente todas as instruções que já li em situações como essa. Que não se deve reagir, que se deve fazer movimentos lentos, que o assaltante está mais nervoso e com mais medo do que eu.
Toc toc toc e verifiquei que o vidro estava fechado, as portas estavam travadas, o carro estava engatado e não passava nenhum carro pelo cruzamento à minha frente.
Toc toc toc e vi que a arma era calibre 22 ou 32. Não era 38 porque essa eu conheço bem. Estava um pouco enferrujada e o barulho do metal batendo no vidro me convenceu de que não se tratava de arma de brinquedo.
Toc toc toc e o cara não era moleque. O dito cujo deveria estar lá pelos trinta e cinco. Magro, um pouco calvo, com uma jaqueta jeans surrada.
Toc toc toc e avaliei a minha situação. Porta travada, vidro fechado, marcha engatada e nenhum carro cruzando. Tenho duas opções ao menos: ou abro a porta e vamos ver no que dá ou arranco.
Toc toc toc e tiro minhas mãos do volante ao mesmo tempo em que meu pé direito afunda no acelerador e meu pé esquerdo solta a embreagem.
Toc toc toc e aguardo o estampido da cápsula deflagrada. Aguardo o vidro estourar. Aguardo um baque acima da nuca.
Toc toc toc e me abaixo enquanto atravesso o vermelho.
Não houve estampido, nem vidro quebrado e nem o baque na nuca. Acelerei e acelerei. Não sei o que o safado do assaltante acabou fazendo. Não vi se correu, se assaltou outro, se saiu andando tranqüilamente. Não importa também. Fui apenas mais uma vítima dentre centenas naquela noite. Deveria ser normal.
Mas não é. Em dois segundos deixei muita coisa naquele cruzamento.
Se quizer Ouvir a Verdade Fique a vontade
By Nina Maluf
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